Pedro, Cade a Ju?

 
 
18 August 2015
Pedro

Havana

 

# Dias: 4 (Agosto, 2015)

Visitar Cuba pode despertar aquela nostalgia quase infantil de que tudo já foi muito melhor no passado do que é nos dias de hoje. Quando as ruas não estavam entupidas de carros, quando o trabalho tinha hora certa para acabar, quando as crianças jogavam bola na calçada e não em seus Playstations de última geração, quando se divertir com os amigos pressupunha um encontro em algum lugar e não a criação de mais um grupo no Whatsapp, quando para comprarmos algo dependíamos de que este algo estivesse em estoque na loja da esquina e não de um cadastro na Amazon.com, quando o nosso Carnaval divertia sem deixar um rastro de lixo e bêbados pelo caminho, quando as pessoas interagiam nos espaços públicos por puro prazer e não em cafés corporativos em salas de conferências caras por interesses pessoais, enfim, quando éramos todos ainda jovens. Mas a verdade é que o fato de Cuba ter parado no tempo tem pouco a ver com uma escolha consciente de quem lá vive e mais com uma realidade que se impôs por uma série de políticas públicas desastrosas. Se lá não há trânsito, não é por causa de um grande êxito do transporte público, mas simplesmente porque não há carros para todos. Se há gente jovem ociosa pelas ruas, não é por terem atingido a independência financeira cedo demais, mas por falta de emprego ou interesse em trabalhar o mês inteiro para receber o equivalente a dez ou trinta dólares em pesos cubanos. Se há crianças lançando peões por aí, não é necessariamente por serem mais divertidos que os brinquedos mais modernos, mas porque muitos deles ainda são ficção cientifica na ilha. Se há gente olhando pela janela o tempo passar ao invés de para a tela de seus Smartphones, não é por que inventaram uma cura para o vício cibernético mas simplesmente porque a internet é incrivelmente cara, seus pontos de acesso são escassos e os telefones celulares (sim, aqueles pesados, feios e resistentes da Nokia) são novidade por lá. Se não há produtos nas prateleiras, não é por falta de demanda, mas porque já não há ninguém disposto a produzir. Se o carnaval cubano parecia mais sóbrio e limpo que o nosso (sim, chegamos bem no dia da festa), não significava que optaram por viver uma vida mais saudável que a nossa, mas apenas que falta dinheiro mesmo para consumir cerveja e cigarro. Se alguém nos parava na rua para bater papo, não indicava uma curiosidade genuína sobre o que fazíamos por lá ou mera simpatia, mas apenas pretexto para pedir alguma coisa na sequência. Se as farmácias viraram ponto turístico, não é por sua sofisticação, mas sim por parecerem lindos laboratórios de alquimia do século retrasado. Enfim, quem sabe não tenhamos chego lá justamente no dia em que tudo isso pode começar a mudar: 14 de agosto de 2015, a data em que alçaram novamente a bandeira norte-americano no Malecón.

Onde Dormimos: Melia Cohiba (razoável -- avaliação tripadvisor).

Fica a Dica: Por uma mudança inesperada de planos, não nos hospedamos em casas de família, mas recomendamos que o façam.

Comentários  

+1 #2 verapz 31-08-2015 11:16
Very good insight.
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+1 #1 Biti 29-08-2015 19:06
Muito pitoresco, na próxima: casa de família! Hoje na FSP, Leonardo Padura aborda justamente a internet
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